Durante mais de uma década, a inovação ocupou um lugar quase mítico nas organizações. Ela ganhou prédios próprios, laboratórios coloridos, squads multidisciplinares, programas de startups, hackathons e viagens ao Vale do Silício. Em muitos casos, tornou-se um símbolo de modernidade corporativa. Empresas que antes operavam em estruturas rígidas passaram a falar em agilidade, design thinking, transformação digital e inovação aberta como parte de sua identidade pública.

Esse movimento não surgiu por acaso. A partir dos anos 2000, a aceleração tecnológica provocada pela internet, pela computação em nuvem e posteriormente pelos smartphones criou um ambiente de ruptura contínua. A ascensão de empresas como Amazon, Google, Netflix e Tesla consolidou a ideia de que organizações tradicionais poderiam ser rapidamente superadas por novos modelos de negócio orientados por tecnologia, dados e velocidade de adaptação.

No Brasil, esse movimento ganhou força especialmente entre 2012 e 2022. Grandes empresas passaram a estruturar áreas dedicadas à inovação, criar programas de corporate venture capital e se aproximar do ecossistema de startups. A inovação aberta tornou-se praticamente um consenso estratégico. Inspiradas pelo modelo formulado por Henry Chesbrough, organizações passaram a buscar fora de seus limites aquilo que antes tentavam desenvolver exclusivamente internamente.

Durante esse período, a lógica dominante era relativamente clara: inovar significava explorar o novo. O objetivo era gerar ideias, criar experimentos, desenvolver provas de conceito e aumentar a proximidade com tecnologias emergentes. Em muitos casos, a inovação passou a funcionar também como mecanismo de reputação corporativa. Ter um hub, um laboratório ou um programa de startups tornava-se uma forma de sinalizar modernidade ao mercado.

Mas o contexto mudou.

Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, observa-se uma transformação importante no discurso dos CEOs brasileiros. Em vez de enxergarem inovação como um ecossistema paralelo, os executivos passaram a pressionar por impacto operacional concreto. O que antes era tolerado como exploração experimental passou a ser cobrado em eficiência, produtividade e geração mensurável de valor.

Uma pesquisa recente da EY Brasil mostra que 94% dos CEOs brasileiros acreditam que a inteligência artificial já atende ou supera suas expectativas, enquanto 86% esperam impactos transformacionais nos modelos operacionais das empresas. O dado é revelador porque indica uma mudança de eixo: a inovação deixou de ser percebida prioritariamente como criatividade organizacional e passou a ser tratada como infraestrutura estratégica de operação.

Essa mudança ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais perceptível no mercado brasileiro: a redução, reconfiguração ou até descontinuação de áreas formais de inovação em algumas organizações. Não necessariamente porque a inovação perdeu relevância, mas porque o modelo de inovação adotado na última década começou a demonstrar limites claros.

Muitas empresas perceberam que acumularam iniciativas sem alterar profundamente sua capacidade organizacional. Houve abundância de pilotos, mas dificuldade de escala. Multiplicaram-se os projetos, mas nem sempre os resultados estruturais. Em diversos casos, os laboratórios de inovação tornaram-se relativamente desconectados da operação principal, incapazes de influenciar cultura, governança ou tomada de decisão em larga escala.

Isso, no entanto, não significa que estruturas formais de inovação perderam utilidade. Pelo contrário. O amadurecimento do mercado tende a reforçar a importância de modelos mais robustos, integrados e sistêmicos de gestão da inovação.

É justamente nesse contexto que frameworks como a família International Organization for Standardization 56000 voltam a ganhar relevância. Um Innovation Management System (IMS), inspirado na ISO 56002, oferece algo que muitas organizações perceberam ter negligenciado nos últimos anos: coerência estratégica, alinhamento organizacional e capacidade contínua de transformar inovação em resultado.

Na prática, um IMS não significa burocratizar inovação. Significa criar um sistema organizacional capaz de sustentar inovação de maneira recorrente e integrada ao negócio.

Dependendo do porte e da maturidade da empresa, isso pode incluir:

Uma indústria tradicional, por exemplo, provavelmente exigirá um modelo mais orientado à eficiência operacional, melhoria contínua e inovação incremental. Já empresas de tecnologia ou negócios digitais talvez operem com estruturas mais descentralizadas e ciclos mais rápidos de experimentação. Em empresas familiares, o desafio frequentemente envolve equilibrar preservação cultural, sucessão e transformação estratégica. Em grandes corporações, o problema tende a ser coordenação sistêmica e velocidade decisória.

Ou seja: não existe um único modelo ideal de IMS. O sistema precisa refletir o contexto, a estratégia e a maturidade da organização.

Mas talvez o elemento mais negligenciado nos últimos anos tenha sido justamente a governança da inovação.

Durante muito tempo, governança foi confundida com controle de projetos ou aprovação de orçamento. Hoje, torna-se cada vez mais evidente que governança de inovação significa algo muito mais amplo: criar mecanismos organizacionais capazes de equilibrar exploração e eficiência, curto e longo prazo, autonomia e alinhamento estratégico.

Isso implica decisões importantes:

Em muitas organizações, o verdadeiro gargalo da inovação não é tecnológico, mas decisório. As empresas até conseguem gerar ideias e testar soluções, mas enfrentam enorme dificuldade para escalar iniciativas porque faltam clareza estratégica, patrocínio executivo, integração transversal e alinhamento cultural.

O problema central, portanto, deixou de ser a geração de ideias. O novo desafio é a capacidade de absorver transformação.

E é exatamente nesse ponto que tecnologia, governança e desenvolvimento humano começam a convergir.

A introdução acelerada de inteligência artificial expôs essa fragilidade de maneira contundente. A tecnologia avança em velocidade exponencial, mas a maior parte das organizações continua operando com estruturas cognitivas, culturais e decisórias desenhadas para ambientes lineares. O resultado é uma tensão crescente entre capacidade tecnológica e maturidade organizacional.

Por isso, o próximo ciclo da inovação provavelmente dependerá menos da existência de ferramentas e mais da capacidade humana de utilizá-las de maneira inteligente.

Isso implica revisitar temas que durante algum tempo ficaram em segundo plano no debate corporativo. Cultura organizacional, por exemplo, volta ao centro da discussão — mas agora sob uma perspectiva mais pragmática. Não se trata apenas de promover colaboração ou estimular criatividade. Trata-se de construir culturas capazes de lidar com ambiguidade, aprendizagem contínua, adaptação rápida e integração transversal.

Mas talvez o ponto mais crítico esteja no desenvolvimento das lideranças.

A maior parte dos executivos foi formada em contextos relativamente previsíveis, orientados por eficiência, estabilidade e controle. O ambiente atual exige outra configuração mental: capacidade de operar em complexidade, integrar perspectivas divergentes, tomar decisões sob incerteza e conduzir transformações contínuas sem destruir coesão interna.

Não por acaso, cresce internacionalmente o interesse por temas como desenvolvimento vertical de liderança, inteligência coletiva, adaptabilidade organizacional e capacidades humanas profundas. O debate deixa de girar apenas em torno de competências técnicas e passa a incluir discernimento, qualidade de atenção, capacidade reflexiva, aprendizagem contínua e maturidade emocional.

Isso significa que um IMS consistente dificilmente funcionará sem um trabalho paralelo de desenvolvimento humano.

Não basta implementar processos de inovação se a liderança continua presa a modelos excessivamente hierárquicos, avessos ao risco ou incapazes de lidar com ambiguidade. Não basta criar estruturas ágeis se a cultura organizacional pune erro, reduz autonomia ou recompensa apenas eficiência de curto prazo.

A próxima geração de sistemas de inovação provavelmente exigirá uma integração muito mais profunda entre:

O que emerge, portanto, é uma redefinição do próprio conceito de inovação.

Durante muito tempo, inovar significou criar o novo. Agora, começa a significar desenvolver organizações capazes de evoluir continuamente em ambientes exponenciais.

A diferença é profunda.

No primeiro caso, inovação é atividade. No segundo, é capacidade organizacional.

E talvez essa seja a verdadeira fronteira da inovação daqui para frente: não apenas criar empresas mais digitais, mas organizações mais conscientes, adaptativas e capazes de sustentar transformação contínua sem perder coerência, direção e humanidade.

NOTA: Partes deste ensaio foram desenvolvidas em diálogo com modelos de linguagem de inteligência artificial, utilizados como suporte à exploração de ideias, à formulação de argumentos e ao refinamento da linguagem. Todo o conteúdo gerado por IA foi revisado, editado e integrado pelo autor, a fim de garantir precisão, coerência e alinhamento com o sentido pretendido. O enquadramento conceitual, a estrutura, os argumentos e todas as decisões editoriais finais são inteiramente obra do autor, com a IA atuando como ferramenta criativa e analítica — à semelhança de um assistente de pesquisa ou parceiro editorial. A responsabilidade integral pelo conteúdo é do autor.